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quarta-feira, 23 de março de 2011

Soneto

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Perdoa se hoje em verso rude não cadente

Ledos os sentimentos de minha alma exprimo:

Tu verás que na arte de poeta eu não primo

Porém verás que só digo o que meu peito sente.

Mas os teus anos que me alegram a mente,

Triste pensamento me faz vir do imo

De meu peito alegre. De ti que eu tanto estimo

Para o ano, em igual dia hei de estar ausente!

Mas se de ti separar-me a extensão tão imensa,

A grande distância que entre nós estiver

Lembrança de ti não me fará perder.

Faz que tua alma a distância também vença,

Neste dia entre os amigos não te esquece

Daquele em quem tua lembrança não fenece.
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Imitação

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O tempo alegre corria

Da infância nos anos meus;

O céu azul me sorria;

Que esperança, oh meu Deus!

Via uma verde campina,

Nele uma flor peregrina;

Tinha uma crença querida,

Sonhava glórias brilhantes,

No porvir da minha vida.

Dias de gozo e ventura,

Manhãs de purpúrea cor,

Tardes de elísia doçura,

Noites de ameno frescor;

O sol doirado fulgindo;

A lua argêntea luzindo;

Tudo, tudo prometia

Alegrias amorosas;

Canções do céu tão mimosas!

Tudo, tudo repetia.

Haver pensara no mundo

Uma sincera afeição

Amor leal e profundo,

Santo amor do coração;

Sonhava fruir delícias,

Ternas e meigas carícias;

Mulheres belas gozar,

Mais belas que a do Profeta,

Puro amor como o de poeta

Rendido lhes consagrar.

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Minha Desgraça

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Minha desgraça não é ser poeta,

Nem na terra de amor não ter um eco,

E meu anjo de Deus, o meu planeta

Tratar-me como trata-se um boneco...

Não é andar de cotovelos rotos,

Ter duro como pedra o travesseiro...

Eu sei... O mundo é um lodaçal perdido

Cujo sol (quem mo dera!) é o dinheiro...

Minha desgraça, ó cândida donzela,

O que faz que o meu peito blasfema,

É ter para escrever todo um poema

E não ter um vintém para uma vela.

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Último Soneto

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Já da noite o palor me cobre o rosto,

Nos lábios meus o alento desfalece,

Surda agonia o coração fenece,

E devora meu ser mortal desgosto!

Do leito, embalde num macio encosto,

Tento o sono reter!... Já esmorece

O corpo exausto que o repouso esquece...

Eis o estado em que a mágoa me tem posto!

O adeus, o teu adeus, minha saudade,

Fazem que insano do viver me prive

E tenha os olhos meus na escuridade.

Dá-me a esperança com que o ser mantive!

Volve ao amante os olhos, por piedade,

Olhos por quem viveu quem já não vive!

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Lágrima de Sangue

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Ao pé das aras no clarão dos círios

Eu te devera consagrar meus dias;

Perdão, meu Deus! perdão

Se neguei meu Senhor nos meus delírios

E um canto de enganosas melodias

Levou meu coração!

Só tu, só tu podias o meu peito

Fartar de imenso amor e luz infinda

E uma Saudade calma;

Ao sol de tua fé doirar meu leito

E de fulgores inundar ainda

A aurora na minh'alma.

Pela treva do espírito lancei-me,

Das esperanças suicidei-me rindo...

Sufoquei-as sem dó.

No vale dos cadáveres sentei-me

E minhas flores semeei sorrindo

Dos túmulos no pó.

Indolente Vestal, deixei no templo

A pira se apagar — na noite escura

O meu gênio descreu.

Voltei-me para a vida... só contemplo

A cinza da ilusão que ali murmura:

Morre! — tudo morreu!

Cinzas, cinzas... Meu Deus! só tu podias

À alma que se perdeu bradar de novo:

Ressurge-te ao amor!

Malicento, da minhas agonias

Eu deixaria as multidões do povo

Para amar o Senhor!

Do leito aonde o vício acalentou-me

O meu primeiro amor fugiu chorando.

Pobre virgem de Deus!

Um vendaval sem norte arrebatou-me,

Acordei-me na treva... profanando

Os puros sonhos meus!

Oh! se eu pudesse amar!... — É impossível!

Mão fatal escreveu na minha vida;

A dor me envelheceu.

O desespero pálido, impassível

Agoirou minha aurora entristecida,

De meu astro descreu.

Oh! se eu pudesse amar! Mas não:

agora Que a dor emurcheceu meus breves dias,

Quero na cruz sangrenta

Derramá-los na lágrima que implora,

Que mendiga perdão pela agonia

Da noite lutulenta!

Quero na solidão — nas ermas grutas

A tua sombra procurar chorando

Com meu olhar incerto:

As pálpebras doridas nunca enxutas

Queimarei... teus fantasmas invocando

No vento do deserto.

De meus dias a lâmpada se apaga:

Roeram meu viver mortais venenos;

Curvo-me ao vento forte.

Teu fúnebre clarão que a noite alaga,

Como a estrela oriental me guie ao menos

Té o vale da morte!

No mar dos vivos o cadáver bóia

— A lua é descorada como um crânio,

Este sol não reluz:

Quando na morte a pálpebra se engóia,

O anjo se acorda em nós — e subitâneo

Voa ao mundo da luz!

Do val de Josafá pelas gargantas

Uiva na treva o temporal sem norte

E os fantasmas murmuram...

Irei deitar-me nessas trevas santas,

Banhar-me na frieza lustral da morte

Onde as almas se apuram!

Mordendo as clinas do corcel da sombra,

Sufocando, arquejante passarei

Na noite do infinito.

Ouvirei essa voz que a treva assombra,

Dos lábios de minh'alma entornarei

O meu cântico aflito!

Flores cheias de aroma e de alegria,

Por que na primavera abrir cheirosas

E orvalhar-vos abrindo?

As torrentes da morte vêm sombrias,

Hão de amanhã nas águas tenebrosas

Vos rebentar bramindo.

Morrer! morrer! É voz das sepulturas!

Como a lua nas salas festivais

A morte em nós se estampa!

E os pobres sonhadores de venturas

Roxeiam amanhã nos funerais

E vão rolar na campa!

Que vale a glória, a saudação que enleva

Dos hinos triunfais na ardente nota,

E as turbas devaneia?

Tudo isso é vão, e cala-se na treva

— Tudo é vão, como em lábios de idiota

Cantiga sem idéia.

Que importa? quando a morte se descarna,

A esperança do céu flutua e brilha

Do túmulo no leito:

O sepulcro é o ventre onde se encama

Um verbo divinal que Deus perfilha

E abisma no seu peito!

Não chorem! que essa lágrima profunda

Ao cadáver sem luz não dá conforto...

Não o acorda um momento!

Quando a treva medonha o peito inunda,

Derrama-se nas pálpebras do morto

Luar de esquecimento!

Caminha no deserto a caravana,

Numa noite sem lua arqueja e chora...

O termo... é um sigilo!

O meu peito cansou da vida insana;

Da cruz à sombra, junto aos meus, agora

Eu dormirei tranqüilo!

Dorme ali muito amor... muitas amantes,

Donzelas puras que eu sonhei chorando

E vi adormecer.

Ouço da terra cânticos errantes,

E as almas saudosas suspirando,

Que falam em morrer...

Aqui dormem sagradas esperanças,

Almas sublimes que o amor erguia...

E gelaram tão cedo!

Meu pobre sonhador! aí descansas,

Coração que a existência consumia

E roeu um segredo! ...

Quando o trovão romper as sepulturas,

Os crânios confundidos acordando

No lodo tremerão.

No lodo pelas tênebras impuras

Os ossos estalados tiritando

Dos vales surgirão!

Como rugindo a chama encarcerada

Dos negros flancos do vulcão rebenta

Goltejando nos céus,

Entre nuvem ardente e trovejada

Minh'alma se erguerá, fria, sangrenta,

Ao trono de meu Deus...

Perdoa, meu Senhor! O errante crente

Nos desesperos em que a mente abrasas

Não o arrojes p'lo crime!

Se eu fui um anjo que descreu demente

E no oceano do mal rompeu as asas,

Perdão! arrependi-me!

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As Litânias de Satã

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Ó tu, o Anjo mais belo e também o mais culto,

Deus que a sorte traiu e privou do seu culto,

Tem piedade, ó Satã, desta longa miséria!

Ó Príncipe do exílio a quem alguém fez mal,

E que, vencido, sempre te ergues mais brutal,

Tem piedade, ó Satã, desta longa miséria!

Tu que vês tudo, ó rei das coisas subterrâneas,

Charlatão familiar das humanas insânias,

Tem piedade, ó Satã, desta longa miséria!

Tu que, mesmo ao leproso, ao paria infame, ao réu

Ensinas pelo amor às delícias do Céu,

Tem piedade, ó Satã, desta longa miséria!

Tu que da morte, tua velha e forte amante,

Engendraste a Esperança, - a louca fascinante!

Tem piedade, ó Satã, desta longa miséria!

Tu que dás ao proscrito esse alto e calmo olhar

Que faz ao pé da forca o povo desvairar,

Tem piedade, ó Satã, desta longa miséria!

Tu que sabes onde é que em terras invejosas

O Deus ciumento esconde as pedras preciosas.

Tem piedade, ó Satã, desta longa miséria!

Tu cuja larga mão oculta os precipícios,

Ao sonâmbulo a errar na orla dos edifícios,

Tem piedade, ó Satã, desta longa miséria!

Tu que, magicamente, abrandas como mel

Os velhos ossos do ébrio moído num tropel,

Tem piedade, ó Satã, desta longa miséria!

Tu, que ao homem que é fraco e sofre deste o alvitre

De poder misturar ao enxofre o salitre,

Tem piedade, ó Satã, desta longa miséria!

Tu que pões tua marca, ó cúmplice sutil,

Sobre a fronte do Creso implacável e vil,

Tem piedade, ó Satã, desta longa miséria!

Tu que, abrindo a alma e o olhar das raparigas a ambos

Dás o culto da chaga e o amor pelos molambos,

Tem piedade, ó Satã, desta longa miséria!

Do exilado bordão, lanterna do inventor,

Confessor do enforcado e do conspirador,

Tem piedade, ó Satã, desta longa miséria!

Pai adotivo que és dos que, furioso, o Mestre

O deus Padre, expulsou do paraíso terrestre

Tem piedade, ó Satã, desta longa miséria!

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